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25 de abr de 2011

Usar palavra em inglês é coisa de papagaio, diz deputado




Ana Cláudia Barros

Imagine a seguinte cena: em um escritório qualquer, numa sexta-feira qualquer, colegas de empresa planejam uma "hora feliz" depois do trabalho. O convite é propagado pelo correio eletrônico, enviado após um clique no rato.

A situação é obviamente caricata, mas para o deputado estadual Raul Carrion (PCdoB-RS) não soaria tão estranha assim. Contrário à inclusão de estrangeirismos na Língua portuguesa, ele é autor da lei que veta a utilização, nos meios de comunicação, propagandas e em documentos no Rio Grande do Sul, de palavras em outros idiomas, sem que elas sejam acompanhadas de tradução.

Mesmo as mais corriqueiras teriam que seguir a regra estabelecida pela lei aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado e que agora aguarda sanção do governador Tasso Genro (PT).

A norma lembra a proposta do deputado federal Aldo Rebelo, também do PCdoB, que, atualmente, tramita no Senado.

Alvo de críticas e, até mesmo, de deboche, a nova lei vem provocando discussão. Para seu autor, uma das finalidades é "assegurar o direito do consumidor de ser informado em sua língua pátria".

-Sabes que um diabético não pode consumir açúcar. Se tem um produto diet ou light. Tu sabes qual não tem açúcar? Isso pode levar à morte de um diabético - argumenta Carrion, que está no Vietnã, "em missão pela Assembleia Legislativa".

Ele prossegue na explicação: "A língua tem que ser respeitada, tem que ser cultivada, tem que ser ensinada para as pessoas e a propaganda é uma forma de transmitir nossa língua".

Demonstrando particular preocupação com o inglês, o deputado comunista considera "atitude de colonizado" adotar termos estrangeiros.

-Eu te pergunto o seguinte: liquidação. Existe a palavra. Queima, torra, torra. Para que colocar "sale"? - indaga, completando:
- É patético ver os brasileiros escrevendo na sua língua e mesclando palavras em inglês. Ou é ignorância em relação ao português.

Ciente do potencial polêmico da nova norma, o parlamentar argumenta:

- Hoje, defender a soberania do nosso País é considerado uma coisa atrasada. O bonito é ser cosmopolita, ser entreguista, abrir as porteiras para os capitais, para os investimentos, para o comércio. Estamos nadando contra a corrente, é verdade.

Confira trechos da entrevista ao Terra Magazine:

Terra Magazine - O que diz o projeto?
Raul Carrion - O projeto determina que quando peças de publicidade, propaganda ou documentos utilizarem palavras em inglês, que tenham equivalente em português, podes usar - não há problema - mas deve traduzir.

Coloca entre parênteses, entre travessões, como achar melhor. Se a palavra não tem equivalente em português, então deve ser colocada, pelo menos, uma explicação para que a pessoa comum saiba do que está tratando.


O senhor já afirmou que a lei seria uma forma de resguardar a língua portuguesa de estrangeirismos...
Em segundo lugar, tem isso. Se uma pessoa escreve, por exemplo, em inglês, eu te pergunto: ela mescla com palavras em português? É normal? Quer dizer, se tu estás escrevendo em inglês e tu colocas uma palavra em português, isso é uma demonstração de ignorância sua. Não concordas?

Agora, se tu estás escrevendo em português e colocas uma palavra em inglês e ela existe em português, ao invés de uma demonstração de ignorância por não estás conseguindo se exprimir em tua língua, aí tu és um sábio, uma pessoa mais inteligente, mais bem preparada. É uma visão colonial.

O senhor considera que é o brasileiro assume comportamento de colonizado ao usar expressões estrangeiras?
Eu te pergunto o seguinte: liquidação. Existe a palavra. Queima, torra torra. Para que colocar "sale"? Tem um comportamento que, na verdade, é desprezo pela nossa língua, quando não é ignorância em relação a nossa língua. Por exemplo: futebol. Uma palavra portuguesa. Mas por qual razão se escreve football? Outra: drinque. Existe em português. Aí, o cara escreve "drink". É modismo, é atitude de colonizado.

A língua tem que ser respeitada, tem que ser cultivada, tem que ser ensinada para as pessoas e a propaganda é uma forma de transmitir nossa língua.

Ah, mas o cara quer, porque vê o canal em inglês e acha uma beleza. Põe um "net", uma palavra em inglês...Faça-o, mas respeite nossas crianças que estão estudando português, respeite a língua.

Falam em globalização, como se com a globalização tivéssemos que misturar o português com o inglês. Vamos estudar inglês. Beleza. Vamos estudar francês, espanhol, italiano. Quando escrevermos em francês, escrevamos em francês. Quando escrevermos em Inglês, escrevamos em Inglês.

É patético ver os brasileiros escrevendo na sua língua e mesclando palavras em inglês. Ou é ignorância em relação ao português.

Aquilo que está dicionarizado, que está incluído na língua, não tem dúvida, desde que se coloque a palavra dicionarizada, como drinque, por exemplo. Agora, não está dicionarizada, mas vai pegar, então, coloca ali (no dicionário). Muitas vezes, a língua absorveu aquela palavra, ela está dicionarizada, mas com uma determinada grafia, como em blecaute. Para que vai usar blackout?

Mas o senhor não concorda que algumas palavras, expressões estrangeiras já foram incorporadas, já fazem parte do cotidiano do brasileiro. Como ficariam happy hour, videogame, por exemplo?
Eu te pergunto: para que coffe-break? Não temos na nossa língua um equivalente? Não é intervalo de café? É algo diferente disso? Então, tu vejas como é uma coisa de papagaio, de macaquinho, de modismo. Acho vergonhoso. Acho que os estrangeiros dão risada quando veem nós usarmos isso. Nossa língua é rica. Tem quase 400 mil vocábulos. E está sendo desprezada desse jeito.

Como o senhor traduziria, por exemplo, happy hour, que é uma expressão muito utilizada pelo brasileiro? Ficaria hora feliz?
Olha, acho que pode ser isso, pode ser... O que diferencia um happy hour de um encontro de amigos?

Mas é um encontro em uma hora específica, geralmente depois do trabalho...
Podia ser um encontro depois do trabalho. Problema nenhum. Quer usar happy hour, usa, mas explica o que ele está querendo dizer. Ele tem que aprender sua língua. Infelizmente, boa parte da população tem dificuldade de se comunicar, aí vem esse modismo.

Hoje, o cidadão vai fazer uma compra e fica até encabulado, constrangido por que ele não sabe a palavra. Não, ignorante é quem está usando a palavra (estrangeira) sem necessidade, só porque viu no filme. Esse programa Big Brother. Primeiro que é um programa lamentável. É uma vergonha o programa em si. E até o nome. Talvez fosse bom até ser em Inglês mesmo para mostrar que isso é uma coisa de americano. É lamentável do ponto de vista cultural.

Big Brother é o grande irmão. É totalmente descabido. Não tem a palavra em português? Mas grande irmão não tem graça, tem que ser big brother...Eu sou historiador, leio muito. Isso me dá asco, para não dizer outra coisa.

Esse negócio de discutir comigo: "não, ao invés de mouse, vou dizer camundongo?" Acho camundongo mais bonito do que mouse. Tudo bem, possivelmente, o mouse seja uma palavra que venha a ser incorporada.

Como uma língua se desenvolve, incorpora novos conceitos que realmente a enriquece? É principalmente com o desenvolvimento tecnológico.

Esse desenvolvimento tecnológico acaba trazendo um nome daquele país que o desenvolveu. Esses casos se justificam.

Agora, importar por submissão cultural? Já temos toda invasão cultural do cinema. E nem se vê mais cinema brasileiro. Poderíamos ver também mais cinema iraniano, francês, italiano.

Se tu estudares história, vai ver que qualquer país inicia a dominação do outro pela dominação cultural, pela imposição da língua.

A lei tem sido motivo de críticas e, até mesmo, de deboches. Como o senhor está encarando isso? Esperava por essa repercussão? É projeto controverso, a própria votação apertada (foi aprovada por 26 votos a 24)demonstra isso.
Claro que é controverso. Hoje, defender a soberania do nosso País é considerada uma coisa atrasada. O bonito é ser cosmopolita, ser entreguista, abrir as porteiras para os capitais, para os investimentos, para o comércio. Estamos nadando contra a corrente, é verdade.

Disseram que o projeto é irrelevante. E eu nunca vi uma polêmica tão ferrada. Se é irrelevante, porque estão tão indignados? Estou mexendo com vespeiro, com interesses dos poderosos, com concepções, com uma ideologia muito forte neste País, que é essa ideologia que prevaleceu durante o neoliberalismo.

Estamos fazendo nossa parte ao criar esse debate.

Terra Magazine

Nota do blog: Salvo engano, Carrion é deputado de primeira viagem e tendo sido vereador em Porto Alegre por diversas legislaturas, talvez não tenha se dado conta do vôo que alçou.

Na vereança, seja pela pequena margem de atuação da câmara para resolver os problemas, seja pela fraqueza dos vereadores, até se pode admitir discutir questões menores como nomes de rua, de praças, ou regulação de posturas inócuas.

Agora, lamenta-se que o deputado venha a público, dando sermão em 200 milhões de brasileiros e os chamando de ignorantes. É muita pedância.

Muito antes pelo contrário, diversas expressões foram incorporadas ao nosso vocabulário coloquial e ajudam muitas pessoas a compreender o teor de mensagens em inglês, ou seja, ajuda as pessoas a se comunicar.

Todo mundo sabe ir ao banheiro onde diz "man" & "woman", "male" & "female", todo sabem o que é "diet", "mouse", "CPU", dentre inúmeras coisas. Conheço pessoas que sem qualquer formação em inglês, conseguem ler um texto na internet sem maiores problemas, justamente pela reiteração do uso de diversas expressões de outras línguas na linguagem diária.

Esta discussão de colônia e colonizados deveria ficar para os debates internos do PCdoB, não espelha a realidade e alguém deveria avisar o deputado que a guerra fria acabou.

Mas pior, muito pior do que isso, são "saites" que aportuguesam expressões como "ok" para "oquei", "site" para "saite" dentre outras barbaridades, inventando palavras que não existem e deturpando a expressão do idioma original.

Democracia é conviver com diferenças sem tentar impor. Cada um que fale do jeito que bem quiser.

Colonização é justamente impor um modo de falar, contra a maré e contra o que a sociedade deseja.

Os deputados que votaram contra, desejam que os EUA dominem o Brasil?










2 comentários:

Julio disse...

A parte do texto sobre a diferença en re light e diet, ele tem razão, ele tem razão em algumas outras coisas, apenas ele está sendo radical demais em sua posição, em Portugal e nos países de língua espanhola não se usa estrangeirismos com a abundância em que se usa aqui, quando existe no vernáculo palavra similar.

Fausto disse...

Olha, francamente: o que as pessoas parecem não entender - ou fingir não entender - é que o deputado está propondo a valorização de nossa identidade. É ridículo e, sim, colonizado, ficar assumindo estrangeirismos (já parou para pensar que, "coincidentemente", eles são, em sua maioria esmagadora, influências americanas?). A verdade é que o brasileiro atual tem ojeriza- quando não desconhecimento completo- à própria cultura, em parte graças aos militares que trataram de inundar nosso cotidiano com americanices que muitas vezes não encotraram respaldo nem lá (vide os maravilhosos filmes de sessão da tarde). "Bullying", "Eco-Friendly", "Happy Our", nada mais são do que exemplos escancarados da postura passiva do brasileiro médio, que insiste em aguardar pelo sinal verde estrangeiro para poder se posicionar a respeito de qualquer coisa. Que venha esta lei.