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5 de abr de 2011

Vila Cruzeiro: cadernos mostram que tráfico faturava pelo menos R$ 60 mil por dia


Não era só com bombas e tiros de fuzil que o tráfico garantia a soberania na Vila Cruzeiro. Quatro cadernos, encontrados num território proibido até a ocupação de novembro do ano passado, mostram como era organizado o esquema de venda de drogas e a movimentação financeira. No Tráfico S.A., até mesmo policiais eram “acionistas”, que recebiam regulamente seus “dividendos”. Tudo para que o negócio continuasse de vento em popa.
As anotações mostram uma movimentação financeira superior a R$ 18 milhões em 307 dias — o equivalente a R$ 60.735 por dia. Para se ter uma ideia, o mesmo valor investido no ano passado por uma empresa mineira que exporta tecidos para mais de 20 países.

O EXTRA teve acesso a mais de 300 páginas, que revelam detalhes sobre o “organograma”. Desde a distribuição de cargas de droga entre atacadistas e varejistas até os investimentos no “social”, que incluíam a compra de peixe e camarão na Semana Santa e rosas no Dia das Mães, está tudo ali.

Segundo o economista Gilberto Braga, professor do Instituto Brasileiro de Mercado e Capitais (IBMEC), a movimentação financeira registrada nos cadernos do tráfico de drogas seria o equivalente a uma empresa de médio porte, com estrutura capaz de contar com 150 funcionários com média salarial de R$ 2 mil.


A contabilidade foi feita entre os dias 15 de janeiro e 23 de novembro do ano passado, cinco dias antes da invasão policial que desestruturou o crime organizado no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão.


Os cadernos fornecem detalhes reveladores do dia a dia dessa “empresa” até o momento em que “casa caiu”, ou melhor, faliu.


As datas comemorativas estão nas anotações

As anotações também mostram uma preocupação com datas comemorativas. Em 9 de maio do ano passado, por exemplo, o tráfico pagou R$ 350 em rosas, pelo Dia das Mães. Em 1 de abril, uma compra de R$ 300 em peixe e camarão foi feita por causa da Semana Santa. E, no dia 5, a contabilidade apontou um gasto de R$ 4.000 em ovos de Páscoa.

Mas há datas que fazem parte apenas do universo do tráfico. Como os abadás encontrados pela polícia na ocupação policial no Complexo do Alemão, que faziam referência ao primeiro ano de domínio de favelas, tomadas de facções rivais.


Conquista da facção

O aniversário da tomada do poder nas favelas do Juramento, Jorge Turco e Chapadão foi comemorado no dia 29 de agosto do ano passado com a aquisição das peças, que citavam as iniciais FB, de Fabiano Atanazio da Silva, e dos seus comparsas Paulo Rogério de Souza Paz, o Mica, e Luiz Cláudio Machado, o Marreta.

As anotações do tráfico de drogas registraram um investimento de R$ 2.800 em abadás, que podem ter sido utilizados para a confecção das peças, que também faziam referência ao Rogério Lemgruber, morto em 1992, que fundou a facção.


Maconha hidropônica: lucro maior

A venda de maconha e cocaína ainda é o carro-chefe da movimentação do tráfico. Foram cerca de três toneladas de carregamento de pó e 2.696 quilos de maconha em 307 dias. Também foram registrados 101 quilos de crack e 54 quilos de zirrê — mistura da maconha com o crack. Mas existe um produto lucrativo, percebido pela alta cúpula do Tráfico S.A.: a maconha hidropônica, que, aos poucos, ganha espaço no mercado consumidor. Ao todo, foram 195 quilos da droga — quase o dobro em comparação com o crack, droga mais potente e mais barata nas bocas de fumo.


A maconha hidropônica, cultivada em estufas, é quatro vezes mais potente em comparação com a comum. E também é mais cara. As anotações que constam na contabilidade apontam um rendimento de até R$ 30 mil pela venda de apenas cinco quilos da droga. A mesma quantia da maconha comum, chamada de “café” ou “mato” nas anotações, rende cerca de R$ 7,5 mil, segundo as anotações do tráfico.

Baile no dia do aniversário do chefão FB

As informações dos cadernos não se limitam aos lucros com drogas. Qualquer movimentação financeira é anotada — desde pagamento semanal de R$ 1,5 mil com fogueteiro, responsável pelo aviso em caso de invasão policial, ate gasto de R$ 10 com saco de lixo. A despesa com bailes era constante.

Registros de R$ 900 com as festas eram feitos semanalmente. Em 23 de julho do ano passado, um dia depois do aniversário de 34 anos de Fabiano Atanazio, um caderno tinha esse tipo de anotação. Na época, uma onda de arrastões no Rio foi atribuída pela polícia à proximidade com a festa de aniversário, regada a bebidas e drogas.

Janeiro do ano passado foi um dos meses mais movimentados. No dia 20, o tráfico pagou R$ 2.850 para a “tia do pagode”. No dia 31, um DJ identificado como “Rico” recebeu R$ 500. Um registro mostra o gasto de R$ 2.800 com um camarote.

Herculano Barreto Filho - herculano.filho@extra.inf.br



 

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